Corvos e gansos
No âmbito do NECE Festival, que se realiza de 14 a 16 de outubro, em Lisboa, Sintra e Cascais, partilhamos um texto de reflexão escrito por Rui Nunes da Silva, Presidente do IPAV, para a revista do festival, sobre o papel da confiança na construção de sociedades mais humanas e democráticas.
Corvos e gansos
Ser Humano gera confiança
A confiança é o recurso mais escasso e mais frágil das nossas democracias. Leva anos a construir e segundos a desfazer. A única forma de a tornar duradoura é enraizá-la onde tudo começa: nas pessoas, nas relações e no cuidado. E essa é, simultaneamente, uma responsabilidade e um desafio para os educadores para a cidadania.
Eis um possível paradoxo para aqueles que desenvolvem trabalho no campo da educação para a cidadania: é impossível ensinar alguém a confiar e, no entanto, é possível aprender a confiar. Digo que é um possível paradoxo, porque nos desafia convenções. A confiança não se transmite, como se transmitem as literacias, não se impõe por decreto ou por campanha de sensibilização, não se adquire num workshop de dois dias. E, no entanto, ela é o alicerce da sociedade, aquilo que nos permite sair de casa todos os dias, deslocarmo-nos, alimentarmo-nos ou convivermos. É o sustento da democracia. Sem ela, não há comunidade. Sem ela, não há cidadania. Sem ela, definitivamente, não há futuro.
O desafio é criar as condições para que a confiança emerja. E é aqui que a educação cívica tem, a meu ver, o seu papel mais decisivo.
A confiança não é um valor. É uma delicada infraestrutura.
Vivemos um período de desconfiança estrutural. Desconfiamos de tudo: das instituições, dos media, dos políticos e dos nossos vizinhos. Os estudos de confiança institucional repetem, com variações de tonalidade mas sem alteração de fundo: a confiança está em colapso lento nas democracias.
Um dos erros habituais é tratar este colapso como um problema de comunicação. Políticos e instituições rodeiam-se de consultores e agências que não os deixem cometer erros e lhes deem uma aparência de segurança e controlo, hermética, em que a fragilidade é escondida ou relegada para talk shows especializados em revelar o "lado humano" dos seus convidados. Mas a confiança não é um valor que se proclame. É uma delicada infraestrutura que se constrói. E como toda a infraestrutura, demora tempo, exige investimento, e quando se degrada, não basta um remendo, é preciso reconstruir pelas fundações.
A diferença entre o corvos e o gansos.
O corvo é uma das aves mais intrigantes do planeta. Resolve puzzles, usa ferramentas, reconhece um rosto humano anos depois de o ter visto uma única vez. E, no entanto, vive de forma desconfiada, num território próprio, alianças instáveis até com os da sua espécie, competição em vez de cooperação. Pode ser individualmente brilhante, mas vive em solidão.
O ganso não tem essa fama de génio. E, no entanto, voa em formação V, onde aquele que lidera, encorajado pelo grasnar dos que o seguem, cria com o bater das suas asas uma corrente de ar que poupa energia significativa a que vêm atrás, e aumenta o alcance do voo em mais de 70%. Quando o líder se cansa, outro assume a dianteira com a confiança dos pares, que simultaneamente cuidam do anterior, colocando-o protegido no final da formação. E há ainda algo mais notável! Quando um ganso se magoa ou adoece, nunca fica sozinho. Um ou dois dos restantes acompanham-no até que recupere ou até à sua morte, antes de retomarem o caminho.
A diferença entre o corvo e o ganso não é de inteligência (qual é o mais inteligente?). É de natureza. A confiança do corvo está apenas em si, enquanto a do ganso vem dos outros, do sistema e do cuidado. E é essa confiança que multiplica aquilo que, sozinho, nenhum ganso conseguiria fazer.
As nossas democracias têm, com frequência, o brilhantismo do corvo: especialistas competentes, instituições sofisticadas e regras bem desenhadas. Não falta a crescente apologia do mérito individual, sobre-humano e autossuficiente. E, no entanto, estão cada vez mais fragilizadas, porque lhes falta a confiança do ganso, que encoraja quem vai na frente, porque sabe que isso lhe aumenta as probabilidades, que recua para que outro avance quando a sua missão está cumprida e com a certeza de que é reconhecido, e que tem as condições para parar sem que seja deixado para trás.
"Só posso ser pessoa, através das outras pessoas."
A palavra africana UBUNTU está na origem do nosso trabalho. Esta palavra, que encontra expressão em variadas línguas africanas, condensa uma filosofia de vida humanista, transversal e independente de qualquer país, cultura, religião ou afiliação política. Ubuntu significa “Eu sou porque tu és”, ou seja, "eu só posso ser pessoa através das outras pessoas".
Ubuntu está intimamente ligado à relação entre as pessoas e à sua interdependência, respondendo ao “Penso, logo existo” com “Relaciono-me, logo existo”. O bem-estar e a felicidade individual estão intimamente ligados ao bem-estar e felicidade do outro. Assim, a filosofia Ubuntu trata da essência do ser humano que valoriza a importância do “eu” na sua busca de sentido através do encontro com o outro, numa relação de interdependência construtiva.
Mas o reconhecimento da nossa existência e desenvolvimento através da nossa humanidade comum e interdependente, tem consequências práticas muito concretas.
Na Academia de Líderes Ubuntu, começamos sempre pelo mesmo lugar: a pessoa. Cada pessoa tem um nome, uma história, com medos e com desejos. A formação da Academia de Líderes Ubuntu é uma proposta de desenvolvimento pessoal, mas nunca individual. É feito em grupo, colocando o poder das relações no centro da sua ação. Porque a identidade pessoal só ganha substância quando encontra a do outro. E é exatamente nesse encontro, nesse espaço de vulnerabilidade partilhada e de escuta ativa, que nasce a confiança, geradora de sentido de pertença a algo maior, que nos é familiar e porém está ocultado no ruído dos estímulos do presente: somos todos braços da mesma árvore, gansos do mesmo bando.
Sentido e propósito
Parece impossível que algo tão simples seja tão universal e transformador.
Nestes 16 anos de trabalho, tive o privilégio de ver "a magia" acontecer um pouco por todo o mundo. Das escolas de Portugal às universidades da América Latina, das comunas de Medellin às aldeias do Sudão do Sul, em salas de aula das Filipinas aos formadores do Banco Mundial.
Um jovem de quinze anos que nunca tinha sentido que a sua voz contava, que começa a melhorar o seu percurso escolar. Um professor que se convenceu de que o seu papel era transmitir conteúdos, percebe que o mais importante é dar espaço às relações. Dois jovens que chegaram ao grupo como adversários, descobrem que têm mais em comum do que pensavam. A descoberta da nossa humanidade comum é poderosa e dá sentido e propósito à nossa vida, em qualquer canto do globo.
O que verificamos ao longo dos anos de trabalho com a Academia de Líderes Ubuntu é algo que nunca tínhamos previsto tão claramente: a infraestrutura de confiança que se constrói dentro de um grupo não fica dentro desse grupo. Quando jovens de backgrounds radicalmente diferentes (socioeconómicos, culturais, religiosos, geográficos,..) passam por uma experiência Ubuntu juntos, acontece algo mais do que amizade ou solidariedade pontual. Estabelece-se uma linguagem comum. Uma meta-identidade onde as identidades individuais não desaparecem, mas coexistem com naturalidade, sem fronteiras mentais (que são as únicas reais).
Isso não é pouca coisa. É o embrião de uma cultura cívica, ou a versão humana da formação em V dos gansos.
É minha convicção firme que a resposta começa na educação, não como uma disciplina de Cidadania, por mais bem intencionada que seja, mas no reconhecimento de cada pessoa e na experiência viva de grupos que aprendem a confiar uns nos outros. Na formação dos educadores que percebem que o que ensinam não são matérias, mas formas de estar no mundo. Na criação de espaços onde um jovem pode dizer "eu não sei" ou "eu tenho medo" sem julgamentos ou expetativas.
A confiança constrói-se assim: pessoa a pessoa, relação a relação, comunidade a comunidade.
Demora, é frágil e não cabe numa métrica trimestral. Mas sem ela, não temos futuro.
Podemos continuar a admirar os corvos. Mas são os gansos que chegam mais longe.




