2026: do outro lado do medo

Jan 2, 2026
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2026: do outro lado do medo

Quando observamos três dos pilares fundamentais do islão — a esmola (zakat), a oração (salat) e o jejum (sawm) — é difícil não reconhecer neles um espelho profundamente familiar à fé cristã. A caridade como dever moral, a oração como aspiração quotidiana da alma e o jejum como exercício de liberdade interior e conversão do coração, são práticas centrais também no cristianismo. Não como rituais automatizados, mas como processo de transformação pessoal e social.

Para os muçulmanos, Jesus (Isa) é um profeta maior, que não morreu, mas ascendeu ao céu e que, no fim dos tempos, regressará para vencer o mal e restaurar a justiça. Esta esperança escatológica também é partilhada. A convicção de que a história não termina no caos, mas na justiça e na misericórdia, aproxima cristãos e muçulmanos de forma profunda e, muitas vezes, subestimada.

Curiosamente, esta visão está mais distante da tradição judaica, que não reconhece Jesus, para além da figura histórica do judaísmo, nem partilha esta visão do seu regresso no fim dos tempos. Dizer isto não é estabelecer hierarquias nem juízos de valor entre religiões. É apenas reconhecer, com honestidade intelectual, que entre as três religiões abraâmicas, cristianismo e islão partilham mais elementos estruturais do que geralmente admitimos no debate público.

Mas à parte de considerações doutrinais, importa sobretudo lembrar que os conflitos entre religiões raramente têm a ver com a fé em si mesma. Têm, quase sempre, a ver com a sua instrumentalização abusiva ao serviço de estratégias de poder, controlo e dominação. E aqui, sem exceção, todos carregamos responsabilidades históricas. Nenhuma tradição religiosa está isenta de ter sido (e continuar a ser) usada — ou de se ter deixado usar — para justificar violência, opressão ou segregação. Confundir abuso com essência é um erro que alimenta ciclos intermináveis de desconfiança.

Aquilo que apontamos com rapidez noutras religiões: formas de vestir, comportamentos, rituais, hierarquias de poder, demonstrações públicas de fé, é muitas vezes algo que já não conseguimos reconhecer dentro da nossa própria tradição. Em todas as religiões existe uma enorme amplitude de práticas, sensibilidades, linguagens simbólicas e estruturas de autoridade. Se olharmos com atenção, encontraremos em cada religião expressões que, fora do seu contexto, podem parecer estranhas, excessivas ou até ridículas. O problema não está na diferença, mas no medo e no desconhecimento com que as olhamos.

Depois do trauma da Segunda Guerra Mundial, a Europa ousou uma travessia coletiva. Em vez de perpetuar a lógica da vingança, escolheu construir um caminho centrado nos direitos humanos, na dignidade da pessoa e na cooperação entre povos. O resultado foi um período de prosperidade e paz sem precedentes na história. Países que durante séculos apenas se encontraram no campo de batalha decidiram fundar uma aliança na confiança mútua, na interdependência e na memória reconciliada. E desenvolveram até uma supra-identidade comum, que não diminuiu nem excluiu nenhuma das identidades que lhe pertencem. A União Europeia não é perfeita, mas continua a ser um farol para o mundo, mostrando que a paz não nasce da negação das diferenças, mas da coragem de construir as pontes e atravessá-las, sem medo do encontro.

O mesmo desafio coloca-se hoje no plano religioso e cultural. Se não nos atrevemos a construir e a passar as pontes, ficaremos para sempre à margem da humanidade. É na relação que nos tornamos humanos. É na coragem do encontro que nos superamos. A recusa da relação desumaniza-nos e transforma-nos em margens de medo e terror, como a história já nos deveria ter ensinado de forma suficiente.

Neste novo ano, talvez o maior ato de fé seja este: vencer o medo da travessia. Percorrer, individual e coletivamente, as pontes do medo para a confiança e da suspeita para o encontro. Num mundo cansado de polarizações religiosas, ideológicas e identitárias, o caminho iniciado depois da grande guerra, que nos trouxe a uma Europa de Paz, continua a ser a maior inspiração para o tempo presente.

Porque a outra margem é, quase sempre, apenas o lugar onde temos medo de chegar.

por Rui Nunes da Silva | Presidente IPAV in Observador

Instituto Padre António Vieira
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