Como sabemos se estamos preparados?
O tempo presente pede-nos prontidão. Quase sem darmos por isso, em poucos anos, encontramo-nos diante de um cenário que julgávamos impossível, embora os seus sinais nos tenham sido anunciados por arautos distantes.
Enquanto procuramos explicações nos efeitos da pandemia, nas alterações climáticas, na civilização algorítmica, no inverno democrático, a evidência dos acontecimentos aconselha-nos a estarmos preparados e organizados, com os meios necessários para enfrentar situações de emergência cada vez mais frequentes, que nos podem conduzir ao abrigo ou à fuga.
Não será por falta literatura nem conselhos sobre essa organização logística, que tantos de nós continuamos a adiar fazê-lo, mas talvez porque não se encaixa no mundo a que nos habituámos.
Mas outra pergunta é ainda mais incómoda: como preparamos a nossa consciência? Como saberemos que estamos prontos para agirmos como desejamos quando o contexto nos interpelar, sem aviso?
Tal como a frequência dos acontecimentos que testam a nossa prontidão material, também a prontidão da nossa consciência já está a ser posta à prova.
Foi por isso que a equipa do IPAV, dedicou a sua pausa de inverno, de dois dias (a que chamamos “Parar para Respirar), ao tema da Coragem Cívica. Inspirados por Aristides de Sousa Mendes, rumámos a Cabanas de Viriato para percorrer o "Caminho da Esperança"*, evocando o percurso que permitiu salvar mais de 30.000 pessoas perseguidas durante a Segunda Guerra Mundial. Fomos guiados pela pergunta simples e inquietante: “E se fosse eu?”.
O que nos ensinou Aristides, foi que a verdadeira preparação começa antes dos planos de contingência. Começa na consciência e prolonga-se na coragem. Aristides de Sousa Mendes não dispôs de longos documentos estratégicos nem de tempo para planear, mas apenas de um momento. E nesse, agiu em consciência e com determinação, sabendo que o silêncio seria cumplicidade e a obediência levaria à morte.
Defender a Dignidade Humana e a Justiça é muito mais difícil do que imaginamos quando estamos confortavelmente sentados na segurança das nossas convicções teóricas.
Por isso, decidimos sair à rua para treinar a Esperança!
O "Caminho da Esperança" não é apenas memória histórica. É um treino moral. O fio da história continua a passar por baixo dos nossos pés e nós seremos responsáveis pela direção que ele tomar.
Saímos mais conscientes do que entrámos. Talvez mais preparados do que ontem. Mas o treino vai continuar, para que possamos ser abrigo para quem é injustiçado e luz para quem atravessa a escuridão.
por Rui Nunes da Silva - Presidente do Instituto Padre António Vieira
*(O "Caminho da Esperança" é uma ecovia que une Carregal do Sal a Cabanas de Viriato e faz parte do núcleo museológico construído pela CM de Carregal do Sal, juntamente com a Casa Museu Aristides de Sousa Mendes. Visitar este espaço e percorrer o "Caminho da Esperança" é dizer sim ao presente.)
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